Saúde pública

“O cano chega à rua, mas o benefício nem sempre entra em casa”, afirma especialista

Para Einstein Paniago, Brasil falha em transformar obras, contratos e investimentos em serviço de abastecimento de água entregue à população

02/10/2026 10h48
Por: Samuel Sales
Foto: Divulgação
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O povo brasileiro deseja e espera pela universalização do saneamento. Existem leis que estabelecem prazo para que esse benefício chegue nas casas, o que demanda bilhões de reais em investimentos. Ainda assim, milhões de brasileiros continuam sem água tratada ou coleta e tratamento de esgoto. Para o professor e especialista Einstein Paniago, o problema revela uma dificuldade que vai além da falta de recursos, ou seja, o país consegue planejar, contratar e anunciar obras, mas ainda encontra dificuldades para levar a política pública até a torneira da casa do cidadão.

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Para ele, a discussão sobre saneamento precisa deixar de se concentrar apenas no volume de investimentos, no modelo de gestão ou nos prazos legais e passar a questionar por que aquilo que já foi decidido nem sempre chega à população como serviço efetivo. “O País tem demonstrado mais habilidade para anunciar o começo da solução do que para concluir, operar e conservar o que começa”, evidencia Paniago. 

O marco legal estabelece metas de universalização até 2033. Mas, na avaliação do especialista, ter uma meta estabelecida não significa necessariamente produzir o resultado esperado. O chamado “último metro” é, para Paniago, onde muitas políticas públicas fracassam. A rede pode chegar à rua, mas a residência pode não estar conectada. A água pode ser distribuída de maneira irregular. O esgoto pode ser coletado, mas não tratado adequadamente. A estrutura pode ser inaugurada e, anos depois, apresentar problemas de operação e manutenção.

“Universalizar não é apenas estender o tubo até a calçada. É concluir o último metro, aquele trecho curto, opaco e decisivo em que a política pública deixa de ser mapa e se torna hábito sanitário”, alerta. O professor chama atenção ainda para as desigualdades regionais e entre áreas urbanas e rurais. Para ele, falar em universalização sem considerar periferias, áreas rurais e regiões historicamente menos atendidas significa trabalhar com uma fotografia incompleta do País.

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“Investir não basta; é preciso concluir e cuidar”, afirma Paniago

Na avaliação de Paniago, um dos problemas centrais está na falta de continuidade. Obras de saneamento exigem planejamento de longo prazo, capacidade técnica, fiscalização, manutenção e integração entre diferentes níveis de governo. Quando essas etapas são interrompidas, o investimento inicial pode não produzir o resultado esperado. “Uma adutora, uma estação de tratamento ou um interceptor de esgoto não se improvisam em uma estação do ano. Tampouco se justificam, no cotidiano administrativo, com a mesma visibilidade de uma obra de fachada. O saneamento é, em grande medida, uma infraestrutura invisível. Quando funciona, ninguém o celebra”, destaca.

Ele considera que existe também um incentivo para valorizar mais o anúncio da obra do que sua conclusão. Contratar, inaugurar e divulgar investimentos são ações mais visíveis do que reduzir perdas, fazer ligações domiciliares, garantir tratamento adequado e manter redes em funcionamento. “Anunciar é mais rentável, em termos de atenção pública, do que concluir. Contratar é mais visível do que ligar o ramal. Inaugurar uma estação é mais fotogênico do que reduzir perdas em redes já existentes”, reforça.

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Para Paniago, a discussão não pode ser restrita à infraestrutura. A ausência de água segura e esgotamento sanitário interfere diretamente na saúde pública e nas condições de vida da população. Por isso, ele defende que o sucesso da política seja medido não apenas pela quantidade de quilômetros de rede implantados ou pelo volume de recursos investidos, mas pelo efeito concreto na vida das pessoas.

“Água segura e destino adequado dos dejetos não são meros serviços. São condições para que a liberdade de ir à escola, de trabalhar, de criar os filhos e de envelhecer com dignidade deixe de ser formalmente proclamada e passe a ser efetivamente exercida”, comentou. Ele aponta a necessidade de fortalecer a cooperação entre União, Estados e Municípios, além de aprimorar a regulação e a fiscalização dos contratos. Para ele, a responsabilidade compartilhada não pode significar uma responsabilidade diluída.

Paniago resume o desafio em uma cobrança que ultrapassa governos e partidos para cumprir aquilo que já foi planejado. “O Brasil já sabe, em linhas gerais, o que precisa ser feito. Já mediu o déficit. Já associou a falta de esgoto ao adoecimento infantil. O que permanece em aberto é se teremos a paciência institucional de concluir”. 

Para ele, o saneamento é justamente um dos testes mais concretos da capacidade do Estado de transformar decisões em resultados. “Conhecimento sem compromisso vira catálogo. Compromisso sem continuidade vira promessa. Continuidade sem cuidado vira sucata”, afirma. A universalização, portanto, não depende apenas de colocar mais canos no chão. Depende de fazer a rede funcionar, chegar às casas e permanecer funcionando. “O cano precisa ultrapassar a calçada. A coragem discreta é terminar o que começou”, conclui.

Perfil biográfico

Einsten Paniago tem trajetória marcada pela atuação em cargos estratégicos na administração pública e em entidades de classe, com experiência em áreas como governança, fiscalização, auditoria, compliance e finanças públicas. Também atua como contador, administrador público e professor universitário, desenvolvendo atividades voltadas à formação técnica e à qualificação da gestão pública.

Doutor em Direito pelo UniCEUB, mestre pela PUC Goiás e MBA pela USP, ele atualmente exerce o cargo de conselheiro federal de Contabilidade (mandato 2026–2029). Com foco no desenvolvimento econômico e na modernização do Estado, defende o fortalecimento da cidadania fiscal e da eficiência na gestão pública como caminhos para melhores resultados sociais e econômicos.

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