A campanha do PT descobriu o que muitos eleitores já sabiam: não dá para vencer uma eleição ficando distante das ruas e das redes sociais.
Os números do primeiro turno ajudam a entender o cenário. Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%, uma diferença superior a 2,2 milhões de votos. O resultado contrariou pesquisas que apontavam Lula à frente. Mais do que um revés eleitoral, foi um recado claro das urnas.
Depois do resultado, Lula teria determinado que sua equipe “mudasse tudo” e classificado aquela como a campanha menos organizada de que participou desde 1989. Quando o próprio candidato faz uma avaliação tão dura, fica evidente que há problemas a serem corrigidos.
Em poucos dias, o presidente, que historicamente demonstrou resistência a determinados formatos de comunicação nas redes, passou a gravar vídeos no estilo selfie e chegou a brincar que havia se tornado o “rei das selfies”. Também confirmou participação nos debates, dos quais havia se mantido afastado durante o primeiro turno.
Na minha avaliação, o problema não está em mudar a estratégia, mas em tentar fazê-lo na reta final, depois de o adversário já ter conquistado espaço nas redes sociais. Autenticidade, conexão com o público e presença digital não se constroem da noite para o dia.
Nos bastidores, a busca por responsáveis pelos erros da campanha já estaria em andamento. Dirigentes do PT teriam atribuído ao ministro Sidônio Palmeira parte dos problemas de comunicação, enquanto Lula avaliaria a possibilidade de recorrer a João Santana, responsável pelo marketing de campanhas anteriores do petista.
Trocar a estratégia de marketing a poucos dias da votação pode ser uma demonstração de capacidade de reação ou um sinal de desespero. O resultado é que mostrará se as mudanças foram suficientes para alterar o rumo da disputa.
Independentemente disso, o movimento revela uma questão importante: a campanha precisa rever decisões que não produziram o resultado esperado no primeiro turno.
Seria injusto analisar a disputa olhando apenas para os problemas da campanha petista. Flávio Bolsonaro também enfrenta desafios e precisa lidar com a circulação de informações falsas durante a campanha.
Entre os episódios citados está um boato envolvendo Nossa Senhora Aparecida, classificado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) como “notoriamente inverídico”. A existência de uma informação falsa, porém, não significa que seus efeitos sobre a percepção dos eleitores desapareçam imediatamente após o desmentido.
Além disso, quem chega ao segundo turno em posição competitiva precisa estar preparado para o aumento dos ataques políticos. Entre as acusações que circulam na disputa estão alegações de que o adversário pretende cortar programas sociais. Afirmações desse tipo precisam ser confrontadas com declarações verificáveis e propostas concretas, e não apenas com respostas de campanha.
O segundo turno não será decidido apenas pelos números do primeiro. A capacidade de mobilizar eleitores, responder a ataques, apresentar propostas e conquistar a confiança de quem ainda está indeciso será determinante para o resultado.
Quem defende Lula argumenta que a mobilização nas ruas neste segundo turno está maior do que no primeiro. Além disso, uma diferença de 1,87 ponto percentual é relativamente pequena em uma disputa presidencial, e cerca de 33 milhões de eleitores se abstiveram na primeira votação. Trata-se de um contingente expressivo, cujo comportamento pode influenciar o resultado final.
É nesse eleitorado que está parte da disputa. Mas não basta contar quantas pessoas comparecem aos atos de campanha ou medir o alcance das publicações nas redes sociais. O desafio é transformar mobilização em votos.
Meu ponto é simples: o segundo turno não será decidido por quem grita mais alto, reúne mais apoiadores ou domina o debate nas redes. Será decidido por quem conseguir convencer o eleitor indeciso e, principalmente, aquele que escolheu ficar em casa no primeiro turno.
Sensação
Vento
Umidade




