Agosto Lilás

Caso de mulher mantida em cárcere por cinco dias reacende debate sobre proteção às vítimas em Águas Lindas

Mulher foi encontrada após cinco dias em cárcere privado em Águas Lindas de Goiás. Caso reacende debate sobre medidas protetivas e rede de proteção.

27/08/2026 21h10
Por: Samuel Sales
Crédito: Elza Fiúza/Agência Brasi
Crédito: Elza Fiúza/Agência Brasi

Uma mulher de 24 anos foi encontrada pela polícia após permanecer cinco dias em cárcere privado em uma casa no município de Águas Lindas de Goiás, no Entorno do Distrito Federal. Segundo as informações divulgadas sobre o caso, Emiliane Tamara Nunes Carvalho foi localizada amordaçada e acorrentada a uma cama na sexta-feira (21).

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O ex-companheiro da vítima, Ailton Rodrigues de Souza, foi preso em flagrante e teve a prisão convertida em preventiva. Conforme informações da Polícia Civil, o imóvel teria sido alugado com a finalidade de manter a mulher presa.

Após ser resgatada, Emiliane relatou ter sofrido diferentes formas de violência durante o período em que permaneceu no local, incluindo estupros, segundo informações divulgadas sobre o caso. Ainda de acordo com a polícia, o suspeito teria afirmado, já sob custódia, que pretendia matar a vítima quando deixasse a prisão.

Mulher já havia pedido medida protetiva

O caso chamou atenção também porque Emiliane já havia procurado o sistema de Justiça anteriormente em busca de proteção contra o ex-companheiro.

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Segundo informações divulgadas pelo Tribunal de Justiça de Goiás, ela havia obtido uma medida protetiva em 2020, com validade de 180 dias, e fez um novo pedido em 2026.

No pedido mais recente, a mulher relatou episódios ocorridos entre dezembro de 2025 e março deste ano, incluindo danos a uma câmera de segurança e outras situações que atribuía ao ex-companheiro.

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O Ministério Público se manifestou pelo indeferimento do pedido e a Justiça negou a medida ao considerar que não havia elementos objetivos suficientes para relacionar o homem aos episódios relatados e demonstrar uma situação atual de risco.

O caso levantou questionamentos sobre a capacidade da rede de proteção de identificar situações de risco antes que a violência evolua para agressões mais graves.

Rede de proteção é alvo de cobranças

O episódio também motivou mobilização de movimentos sociais, sindicatos e moradores de Águas Lindas de Goiás.

Entre as reivindicações apresentadas estão a ampliação dos serviços de atendimento às mulheres, funcionamento em período integral, melhorias na assistência à saúde e no atendimento psicossocial, além de mudanças no transporte coletivo para facilitar o acesso das vítimas aos equipamentos públicos.

Segundo informações levantadas pelo Movimento de Mulheres Olga Benario, a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) do município funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h. Já o Centro de Referência da Mulher Brasileira atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.

Para representantes do movimento, a limitação dos horários pode dificultar o acesso das vítimas aos serviços de proteção, especialmente em situações de emergência.

Três mulheres foram mortas em cinco dias

O caso de Emiliane ocorre meses depois de uma sequência de mortes de mulheres em Águas Lindas de Goiás.

Em dezembro de 2025, três mulheres — Larissa Conceição Amaral, Jennifer Caroline Torres da Costa Sousa e Marinalva Silva Braga — foram mortas em um intervalo de cinco dias. Os casos foram noticiados à época como feminicídios.

A sequência de episódios aumentou a cobrança por políticas públicas voltadas à prevenção da violência contra as mulheres no município.

Dados mostram dimensão da violência

Os dados nacionais também mostram que a violência contra as mulheres continua sendo um problema recorrente.

Em 2025, o Ligue 180 recebeu 155.111 denúncias de violência contra mulheres em todo o país, segundo dados citados na publicação original. Isso representa uma média de aproximadamente 425 denúncias por dia.

No mesmo período, foram registradas cerca de 679 mil violações relacionadas a diferentes formas de violência, incluindo violência psicológica, física, patrimonial e sexual, além de casos de sequestro e cárcere privado. Em quase 50 mil denúncias, a violência relatada ocorria diariamente.

Agosto Lilás

O caso veio à tona durante o Agosto Lilás, campanha nacional dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher.

Especialistas e entidades que atuam na área destacam que a denúncia é uma das etapas de enfrentamento à violência, mas que a existência de uma rede de proteção capaz de acolher, avaliar o risco e acompanhar as vítimas também é fundamental.

Em situações de violência doméstica ou ameaça, mulheres podem buscar ajuda por meio dos serviços de segurança pública e da rede de atendimento especializada. O Ligue 180 é o canal nacional de orientação e denúncia de violência contra a mulher.